Olá, pessoas(?). Olá, fantasmas! Não escrevo mais aqui... Todos os blogs que fiz sempre foram muito solitários, por isso acabei ficando só no fotolog, onde além de escrever às vezes, também posto filmes, imagens bacanas, pinturas, poemas, textos...
http://fotolog.terra.com.br/travessao
A gente se vê(?)!
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Sem inspiração
Se não sei o que acolho
parto
Não há nenhuma canção aqui
Mas porque paga-se o pato
colho
A canção que escrevi
Silenciosa não é
Notas não tem
Melodia não usa
Do acaso abusa
Ritmo desconhece
- ou desaprendeu? -
não sei
por isso parto
cansei da pulsação
ser descons(c)erto
lamento
não há nenhuma canção aqui.
A fusa esqueceu de morrer
Virou breve
A breve esqueceu de viver
Virou qualquer coisa que se confunda
com o fundo de qualquer outra coisa.
Duração extremamente longa
Usaram fermata em todas as notas
Até o ponto de aumento deve de partir
Ralentando... ralentando... até calar.
Bemoldaram o que sobrou
bequadraram numa caixa
jogaram no mar
puros acidentes!
Uma ligadura doce e serena
foi abordada em certa pauta
numa escala enarmônica.
Agora é
uma ligadura non legato
optou pelo estacato
não agüentou o impacto
por isso parto
vou sustenida
sustentando esta vida
que, por não saber o que acolhe [e olho]
parte [e eu parto]
não há lá nenhuma canção aqui.
parto
Não há nenhuma canção aqui
Mas porque paga-se o pato
colho
A canção que escrevi
Silenciosa não é
Notas não tem
Melodia não usa
Do acaso abusa
Ritmo desconhece
- ou desaprendeu? -
não sei
por isso parto
cansei da pulsação
ser descons(c)erto
lamento
não há nenhuma canção aqui.
A fusa esqueceu de morrer
Virou breve
A breve esqueceu de viver
Virou qualquer coisa que se confunda
com o fundo de qualquer outra coisa.
Duração extremamente longa
Usaram fermata em todas as notas
Até o ponto de aumento deve de partir
Ralentando... ralentando... até calar.
Bemoldaram o que sobrou
bequadraram numa caixa
jogaram no mar
puros acidentes!
Uma ligadura doce e serena
foi abordada em certa pauta
numa escala enarmônica.
Agora é
uma ligadura non legato
optou pelo estacato
não agüentou o impacto
por isso parto
vou sustenida
sustentando esta vida
que, por não saber o que acolhe [e olho]
parte [e eu parto]
não há lá nenhuma canção aqui.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Tapem os ouvidos e cantarolem
Estou inundada neste exato momento. Toda a água que me envolve está ficando suja. Logo ficará preta que nem café, e ninguém mais vai poder me ver.
Assim que emergir, vou correr e explodir longe, portanto, não temam que eu suje suas roupas brancas, continuarão impecáveis. E impecáveis vocês olham - já fizeram tanto! Ufa. Estão salvos, nem mesmo tiveram o prazer de lavarem as mãos e jogarem a toalha.
Claro, eu brincava de fantasminha com ela. Por vezes, inclusive, todos rachavam o bico com o teatro da palhaça que não levanta nem a própria lona.
Só o sangue de vocês é sangue escuro de guerra. Nunca tive motivos, não é? Nunca tentei. Nunca mexi uma palha, por isso tenho a bunda gorda e dolorida.
Enquanto vocês se esforçavam em me ajudar, eu, ingrata, ninava com o mais terno amor uma bomba retardada, que explode aos poucos e singelamente. Debaixo d'água ela é a minha simbiose...
Ouço o tic-tac e meu choro é a própria inundação. Resta pouco.
Afastem-se, preciso fugir, não se dêem ao trabalho de me impor obstáculos. Sou pangaré e não salto bem. Quem for puro-sangue das veias de bronze, que levante a mão! Decepo a minha. Tenho veias de alumínio e, quando entrarem em curto-circuito, a escuridão tocará também suas peles, além da minha couraça. E quando tentarem me fazer de sapato, vão ver que eu mesma já me fiz (e já me usei e já percorri distâncias inimagináveis!). Estou pronta para ser calçada, embora esteja muito cansada. Racho de exaustão.
De todas as minhas cicatrizes surge um sangue róseo, como se minha pele fosse virgem. Logo ele secará... e vocês verão um sangue escuro de guerra, surpreendentemente humano. Ainda cuido para me retalhar mais e sempre, porque ainda preciso me mostrar algo que só desenhando no corpo. Não enxergo nem o que os Pitecântropos Erectus já enxergavam ou ao menos intuíam. Hoje muitos dos meus retalhos são como a roupa do rei: só os inteligentes vêem. São marcas profundas, mais primitivas que hieróglifos, e me mostram sem vergonha ou culpa tudo o que vocês evitam ver, porque vivem numa morte disfarçada e nem ao menos se dão conta do disfarce. Às vezes rio, mas quase sempre desejo deixá-los sozinhos na mais nojenta salubridade. Eu prefiro ser doente a compactuar com o mundo "saudável". Mostrem-me que vale a pena, que eu viro gente agora mesmo! Não estou certa das coisas nem ponho a mão no fogo pelas minhas convicções. Posso até me botar inteira no fogo, mas é porque sou má. Muito má! Minha risada é de bruxa e adoro divertir o público.
Dirijam-se ao próximo guichê, por favor.
Assim que emergir, vou correr e explodir longe, portanto, não temam que eu suje suas roupas brancas, continuarão impecáveis. E impecáveis vocês olham - já fizeram tanto! Ufa. Estão salvos, nem mesmo tiveram o prazer de lavarem as mãos e jogarem a toalha.
Claro, eu brincava de fantasminha com ela. Por vezes, inclusive, todos rachavam o bico com o teatro da palhaça que não levanta nem a própria lona.
Só o sangue de vocês é sangue escuro de guerra. Nunca tive motivos, não é? Nunca tentei. Nunca mexi uma palha, por isso tenho a bunda gorda e dolorida.
Enquanto vocês se esforçavam em me ajudar, eu, ingrata, ninava com o mais terno amor uma bomba retardada, que explode aos poucos e singelamente. Debaixo d'água ela é a minha simbiose...
Ouço o tic-tac e meu choro é a própria inundação. Resta pouco.
Afastem-se, preciso fugir, não se dêem ao trabalho de me impor obstáculos. Sou pangaré e não salto bem. Quem for puro-sangue das veias de bronze, que levante a mão! Decepo a minha. Tenho veias de alumínio e, quando entrarem em curto-circuito, a escuridão tocará também suas peles, além da minha couraça. E quando tentarem me fazer de sapato, vão ver que eu mesma já me fiz (e já me usei e já percorri distâncias inimagináveis!). Estou pronta para ser calçada, embora esteja muito cansada. Racho de exaustão.
De todas as minhas cicatrizes surge um sangue róseo, como se minha pele fosse virgem. Logo ele secará... e vocês verão um sangue escuro de guerra, surpreendentemente humano. Ainda cuido para me retalhar mais e sempre, porque ainda preciso me mostrar algo que só desenhando no corpo. Não enxergo nem o que os Pitecântropos Erectus já enxergavam ou ao menos intuíam. Hoje muitos dos meus retalhos são como a roupa do rei: só os inteligentes vêem. São marcas profundas, mais primitivas que hieróglifos, e me mostram sem vergonha ou culpa tudo o que vocês evitam ver, porque vivem numa morte disfarçada e nem ao menos se dão conta do disfarce. Às vezes rio, mas quase sempre desejo deixá-los sozinhos na mais nojenta salubridade. Eu prefiro ser doente a compactuar com o mundo "saudável". Mostrem-me que vale a pena, que eu viro gente agora mesmo! Não estou certa das coisas nem ponho a mão no fogo pelas minhas convicções. Posso até me botar inteira no fogo, mas é porque sou má. Muito má! Minha risada é de bruxa e adoro divertir o público.
Dirijam-se ao próximo guichê, por favor.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
O palhaço que não acredita em Deus
Quarta-feira é dia de música no hospital-dia, mas a esta altura o som já havia silenciado. Lá fora, no jardim, fora eu restaram mais três pessoas, o palhaço Bonito e a palhaça Du'Porto. Conversavam palhaçadas e eu ouvia, quieta, rindo... Não gosto muito de palhaços, especialmente os do circo, não vejo um pingo de graça nas apresentações, mas a gente se afeiçoa a certas pessoas... e eu me afeiçoei aos palhaços. Especialmente depois desta quarta-feira que eu vou contar.
Comigo e os palhaços estavam Severo, Marina e Leandro. Marina começou a falar em Deus com Du'Porto. Eu estava sentada ao lado do Bonito. Ele vira e me pergunta: "Você acredita em Deus?" Eu respondo que não com a cabeça. Ele diz que não também, bem baixinho, como se estivesse contando um segredo. Depois reafirma, mais alto: "Eu também não acredito em Deus", apontando para cima. Meus olhos dizem alguma coisa que até agora não sei dizer... Não é fala que se espera de um palhaço com nariz vermelho. O que eu vi foi o palhaço se despir, mostrar-se apenas humano... Ele teve essa coragem! E foi lindo, eu fiquei estupefata, raramente alguém faz isso.
Depois de um tempo levantamos. Os palhaços precisavam almoçar. Sentei num banco perto da cozinha, não deu dois minutos para a cozinheira me oferecer "um pouquinho de comida", "só um pouquinho". Du'Porto, ouvindo o convite para o almoço que rejeitei, senta ao meu lado e pergunta: "Posso te contar um segredo?" Então ela se despe também. "Já pesei 140kg e já pesei 40kg. Hoje eu descobri que o importante é a gente estar bem com a gente mesmo." Definitivamente os palhaços não queriam me fazer apenas rir, mas contando seus segredos, tirando suas máscaras, queriam me fazer bem. Fiquei pensativa demais. Lembrei de uma frase de Shakespeare que diz: "A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa."
Precisei de um café. E depois com ele vomitei meu pensamento shakesperiano. Não concordo com ele... A vida não tem sido uma história contada por idiotas, mas por pessoas boas que me contam que não acreditam em Deus e quantos quilos já pesaram. Me senti bem, e o sentir-se bem fez lembrar que eu também sou ser humano, mas não sei ser. O ser humano sente fome... e eu estava sentindo. Foi aí que começou. Peguei mais um dos muitos copos de café que tomei naquela tarde para preencher o buraco do estômago. E vomitei muito. Até passar mal. De noite não dormi, tanto era o enjôo.
No dia anterior eu não havia comido nada sólido, então estava realmente com fome. Agora eu ponho um nariz de palhaço, abaixo a cabeça e conto o que fiz. Deus não estava me olhando. Ninguém estava me olhando. Eu estava sozinha com a minha fome. Agora estou com você e a minha vergonha. Passei perto do lixo, vi um bife inteiro, pensei: "não perece tão sujo". E peguei... E comi. Como uma mendiga. É triste demais fazer isso. Fui para o banheiro primeiro para vomitar, depois para chorar.
A vida não é palhaçada, não... é só o que tenho a dizer. O resto? O resto só Deus sabe...
Comigo e os palhaços estavam Severo, Marina e Leandro. Marina começou a falar em Deus com Du'Porto. Eu estava sentada ao lado do Bonito. Ele vira e me pergunta: "Você acredita em Deus?" Eu respondo que não com a cabeça. Ele diz que não também, bem baixinho, como se estivesse contando um segredo. Depois reafirma, mais alto: "Eu também não acredito em Deus", apontando para cima. Meus olhos dizem alguma coisa que até agora não sei dizer... Não é fala que se espera de um palhaço com nariz vermelho. O que eu vi foi o palhaço se despir, mostrar-se apenas humano... Ele teve essa coragem! E foi lindo, eu fiquei estupefata, raramente alguém faz isso.
Depois de um tempo levantamos. Os palhaços precisavam almoçar. Sentei num banco perto da cozinha, não deu dois minutos para a cozinheira me oferecer "um pouquinho de comida", "só um pouquinho". Du'Porto, ouvindo o convite para o almoço que rejeitei, senta ao meu lado e pergunta: "Posso te contar um segredo?" Então ela se despe também. "Já pesei 140kg e já pesei 40kg. Hoje eu descobri que o importante é a gente estar bem com a gente mesmo." Definitivamente os palhaços não queriam me fazer apenas rir, mas contando seus segredos, tirando suas máscaras, queriam me fazer bem. Fiquei pensativa demais. Lembrei de uma frase de Shakespeare que diz: "A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa."
Precisei de um café. E depois com ele vomitei meu pensamento shakesperiano. Não concordo com ele... A vida não tem sido uma história contada por idiotas, mas por pessoas boas que me contam que não acreditam em Deus e quantos quilos já pesaram. Me senti bem, e o sentir-se bem fez lembrar que eu também sou ser humano, mas não sei ser. O ser humano sente fome... e eu estava sentindo. Foi aí que começou. Peguei mais um dos muitos copos de café que tomei naquela tarde para preencher o buraco do estômago. E vomitei muito. Até passar mal. De noite não dormi, tanto era o enjôo.
No dia anterior eu não havia comido nada sólido, então estava realmente com fome. Agora eu ponho um nariz de palhaço, abaixo a cabeça e conto o que fiz. Deus não estava me olhando. Ninguém estava me olhando. Eu estava sozinha com a minha fome. Agora estou com você e a minha vergonha. Passei perto do lixo, vi um bife inteiro, pensei: "não perece tão sujo". E peguei... E comi. Como uma mendiga. É triste demais fazer isso. Fui para o banheiro primeiro para vomitar, depois para chorar.
A vida não é palhaçada, não... é só o que tenho a dizer. O resto? O resto só Deus sabe...
Teatro de Poucas Cores
No Teatro de Poucas Cores a peça principia. Abrem-se as cortinas. O Diabo da Tristeza aparece junto a mim. Não há luzes na ribalta, nem adereços. Há somente rostos espreitando o vulto de alguma vida. Na platéia, seres amorfos assistem à peça e observam: "a personagem é muda". Podem enxergar a lividez em uma alma. A multidão, mesmo se olhasse não olharia. Dá as costas – fico eu, a personagem, com o Diabo da Tristeza. Ele quer dizer-me, eu dialogaria se pudesse...
Principia o primeiro ato, violento em seu silêncio, enérgico como violino de spalla. A multidão, mesmo se ouvisse não ouviria. A peça transborda uma frieza intolerável. Não posso ficar. Não quero. Desço do palco e arrefeço. O Diabo da Tristeza desce, em seguida, e arrefece também. O som mortífero do cravo principia e o desespero se apossa de mim. A multidão, mesmo se sentisse não sentiria. Fujo, escondo-me sob as poltronas. A peça continua, imprevisível.
Segundo ato. Em minha insistência e já prostrada, luto em prol de um vão sossego. Desfaleço, fico ali até o fim do terceiro ato, quando o Diabo da Tristeza vence a insônia e deita-se ao meu lado.
Quarto ato. Último pranto. Olho para Ele, ao meu lado, e pergunto: "o que é?". Diz que está com fome, sua barriga ronca, seus olhos me fitam. Sei o que deseja, alimenta-se de sangue e de fogo. Entrego-me. Fecham-se as cortinas, no entanto, é inútil, a peça já caminha por si só, desenfreadamente.
O sangue enrubesce a lividez do dia que sobrevive. O fogo abranda a frieza dos atos e das almas todas. E a peça, mesmo se findasse não findaria.
Crônica para um domingo
(abril de 2004)
Hoje durante o almoço minha mãe contava, toda feliz, sobre as andanças nos mercados de Franca a procura de Ovos de Páscoa. Eu, empurrando o arroz e feijão goela abaixo, já completamente cheia pela compulsão dos dias anteriores, pensava ‘no vento da minha desgraça’.
Acabei de ler "A incrível e triste história de Cândida Erêndida e sua avó desalmada", de García Márquez. "Erêndida estava banhando a avó quando começou o vento de sua desgraça". Hoje penso no vento da minha, já que Páscoa é a data da desgraça. Não há muito o que dizer. Sim, sim, devorei meu ovo num segundo. Sim, sim, vomitei tudo em seguida, tanto, tanto, que meu rosto amanheceu inchado... E é assim, com cara de coelha mal parida, que vim escrever esta Crônica Bulímica!
Dizem que há um grande prazer nisso tudo. Digo, os profissionais dizem. Aqueles que também dizem que gostam de gente... Você sabe, os canibais! Pois como eu ia dizendo, eles dizem que pessoas como eu usam a libido para alimentar o problema... Sentem tanto prazer que até escrevem uma crônica a respeito! Não é o cúmulo? Vomitar e gozar ao mesmo tempo, depois, em plena Sexta-feira Santa, acordar mal parida com as vozes diabólicas de um psicanalista na cabeça: - Você pecou, moça. Reze três Ave-marias e um Pai-nosso.
Não sei rezar. "Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino..." E a essa altura já me vem a gargalhada por não saber que sandices estou dizendo. Para afugentar as vozes e ignorar o pecado, corro para a cozinha e já não faz diferença que ovos como, se são de galinha ou de chocolate, mas é como se tivesse um pinto dentro de cada um deles. ...Então corro pro banheiro, morta de nojo, e tomo tantos diuréticos quanto meus rins agüentam.
E afinal, se tudo é sexo, só resta o suicídio.
Três estatuetas me encaram enquanto escrevo: Freud, Mercedes Sosa e Gandhi. Na minha prateleira formam um trio eclético, parecem três integrantes das Spice Girls, cada um com um estilo. Neste momento olho para Freud e não compreendo... Mas ele me olha e diz: "Eu explico!". Abre seu livro e me apresenta as pornoteorias. Gandhi ajeita os óculos e tampouco compreendes certos ângulos sexuais. Olha bem para mim e diz, com ternura: "Não ligue para ele, fique com as minhas idéias de não- violência". Violenta, eu? Não, nem em sonho.
Assim, ao som de Mercedes Sosa, enfio o canivete no meu braço e sorrio: É domingo de Páscoa!
*
Esta crônica foi selecionada para o terceiro volume do livro Novos Talentos da Crônica Brasileira, da CBJE (Câmara Brasileira de Jovens Escritores).
http://www.camarabrasileira.com/
Hoje durante o almoço minha mãe contava, toda feliz, sobre as andanças nos mercados de Franca a procura de Ovos de Páscoa. Eu, empurrando o arroz e feijão goela abaixo, já completamente cheia pela compulsão dos dias anteriores, pensava ‘no vento da minha desgraça’.
Acabei de ler "A incrível e triste história de Cândida Erêndida e sua avó desalmada", de García Márquez. "Erêndida estava banhando a avó quando começou o vento de sua desgraça". Hoje penso no vento da minha, já que Páscoa é a data da desgraça. Não há muito o que dizer. Sim, sim, devorei meu ovo num segundo. Sim, sim, vomitei tudo em seguida, tanto, tanto, que meu rosto amanheceu inchado... E é assim, com cara de coelha mal parida, que vim escrever esta Crônica Bulímica!
Dizem que há um grande prazer nisso tudo. Digo, os profissionais dizem. Aqueles que também dizem que gostam de gente... Você sabe, os canibais! Pois como eu ia dizendo, eles dizem que pessoas como eu usam a libido para alimentar o problema... Sentem tanto prazer que até escrevem uma crônica a respeito! Não é o cúmulo? Vomitar e gozar ao mesmo tempo, depois, em plena Sexta-feira Santa, acordar mal parida com as vozes diabólicas de um psicanalista na cabeça: - Você pecou, moça. Reze três Ave-marias e um Pai-nosso.
Não sei rezar. "Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino..." E a essa altura já me vem a gargalhada por não saber que sandices estou dizendo. Para afugentar as vozes e ignorar o pecado, corro para a cozinha e já não faz diferença que ovos como, se são de galinha ou de chocolate, mas é como se tivesse um pinto dentro de cada um deles. ...Então corro pro banheiro, morta de nojo, e tomo tantos diuréticos quanto meus rins agüentam.
E afinal, se tudo é sexo, só resta o suicídio.
Três estatuetas me encaram enquanto escrevo: Freud, Mercedes Sosa e Gandhi. Na minha prateleira formam um trio eclético, parecem três integrantes das Spice Girls, cada um com um estilo. Neste momento olho para Freud e não compreendo... Mas ele me olha e diz: "Eu explico!". Abre seu livro e me apresenta as pornoteorias. Gandhi ajeita os óculos e tampouco compreendes certos ângulos sexuais. Olha bem para mim e diz, com ternura: "Não ligue para ele, fique com as minhas idéias de não- violência". Violenta, eu? Não, nem em sonho.
Assim, ao som de Mercedes Sosa, enfio o canivete no meu braço e sorrio: É domingo de Páscoa!
*
Esta crônica foi selecionada para o terceiro volume do livro Novos Talentos da Crônica Brasileira, da CBJE (Câmara Brasileira de Jovens Escritores).
http://www.camarabrasileira.com/
AMAREAVIDA
Eu tenho tanta vontade de escrever quanto tenho vontade de morrer. Mas nem sempre se pode... Ou se pode e se adia... Eu adio a escrita até a hora do insuportável e nela (trans)bordo uma morte patética, que tem de se abstrair para caber no papel. Não quero disfarçar minhas palavras em gotas de sangue. Também o ato de escrever não poderia ser, infelizmente, um revólver na têmpora. Eu bem sei que a morte não admite metáforas, é um ultraje querer vesti-la bem para que se transforme em beleza e, conseqüentemente, em vida. Abomino a morte da própria morte tanto quanto os que se utilizam deste recurso para fingir que renunciaram à vida. Assim falava Zaratustra: "Queriam estar mortos e nós devemos aceitar seus desejos. Livremo-nos de acordar esses mortos e de tocar em suas sepulturas."
O desejo de morte alimenta-se do silêncio entre um texto e outro e, pois que se nutre da falta, é um desejo anoréxico. Alimenta-se também de muitos outros vazios, dos detalhes do dia-a-dia que apenas se configuram num imenso mar de nada. Por isso não posso contar histórias detalhadas, fico profundamente entediada de pensar nas ondas, indo e vindo, sem uma única rocha às margens, sem um único peixe a habitá-lo. Não, não é um mar morto, pelo contrário, é vivo e porque é vivo que é insuportável. Não vá buscar termos conhecidos para fazer familiar o meu texto (não te quero familiar). Não pretendo patativas, nem que me compreenda nem que se distancie. Também não pretendo mais me aliviar escrevendo, como quando eu fazia em exercícios de adolescência. Se escrever aliviasse, seria uma droga qualquer da qual eu me utilizaria sem pudores. Mas não... com as palavras sou pudica, cheiro um grama hoje, outro grama sabe-se lá quando. E tanto faz como tanto fez. Eu não daria uma boa escritora, não tenho a voracidade necessária para levar a cabo um empreendimento tão fértil. Me faltam peixes...
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Sem título e sem anestesia
COM ESTAS POESIAS
MONOFÓBICAS
...
EU PRECISO DE VOCÊ
ENQUANTO MORRO
...
ENQUANTO ME ABORTO
NÃO ME ABORTE.
Interpoetividade
*
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra disse:
Vai, Carlos! ser gauche na vida.
Carlos Drummond de Andrade
*
Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.
Chico Buarque de Hollanda
*
Quando nasci um anjo esbelto
Desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira.
Carga muito pesada pra mulher
Esta espécie ainda envergonhada.
Adélia Prado
*
Interpoetividade
Quando nasci um anjo decrépito,
desses que vivem no fedor e na marginalidade dos céus
abriu sobre mim suas asas pestilentas
e sem dizer lhufas, afogado no éter do semi-espaço
Me deu de presente a bílis negra, a colorida e a azul-calcinha
E eu segui nojentinha, quase sem prosa, toda sem jeito.
Bandeiras indeterminadas na mão e a pena da galhofa na goela.
Natalia Bonfim
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra disse:
Vai, Carlos! ser gauche na vida.
Carlos Drummond de Andrade
*
Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.
Chico Buarque de Hollanda
*
Quando nasci um anjo esbelto
Desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira.
Carga muito pesada pra mulher
Esta espécie ainda envergonhada.
Adélia Prado
*
Interpoetividade
Quando nasci um anjo decrépito,
desses que vivem no fedor e na marginalidade dos céus
abriu sobre mim suas asas pestilentas
e sem dizer lhufas, afogado no éter do semi-espaço
Me deu de presente a bílis negra, a colorida e a azul-calcinha
E eu segui nojentinha, quase sem prosa, toda sem jeito.
Bandeiras indeterminadas na mão e a pena da galhofa na goela.
Natalia Bonfim
Fragmentada
Depois de cinco anos estou vendo uma paisagem inteira. Um resto de céu e muitos prédios inteiros. Um pedaço de paisagem certamente, que nenhuma janela apresenta o mundo inteiro. Como é bom a visão não fragmentada! A rede de proteção própria, que agora tiraram por estar suja, eu já havia cortado-a embaixo por nunca ter feito sentido. Só para quem quis - para estes sim foi proteção própria e improvisada. Eu sempre olhei desdenhando, mas hoje sei: contra o que eu pudesse pensar, protegeram-se, mesmo sem eu nunca ter pensado em janelas, nem ao menos ter-lhes feito menção. Por muito tempo, na falta total de perspectivas, esqueci até de suas existências quadradas. Mas é que quando se é um perigo, inicialmente os buracos mais óbvios são pensados. “Ei, aí não, que fica peneirado um sol inteiro”, eu devia ter dito, mas deixei que o tapassem. A verdade é que a rede nunca me fez diferença, só estou pensando-a agora. Independente dela, em quantas quedas já não me feri? E tanto! Já estando embaixo, caí em outros buracos, cada parte de mim num bueiro. Nunca me agradou a altura... Eu não ousaria cair inteira, de corpo e alma. Sempre caí por pedaços mas, repito, estando já com os pezinhos no térreo!
Agora olhando pela janela enxergo o meu modo gradual e fragmentado de ser. Devo reconstituir-me numa unidade, então. Será isso? Devo deixar-me um lembrete para amanhã de manhã (que depois do sonho esquecerei dos anseios de agora). Lembrar: ser inteira. Será dia e a claridade entrará sem barreiras pelo meu quarto. Como tenho muita preguiça, vou deixar o dia ser por mim luz, mesmo que o outono não permita grande intensidade. O exercício de não ser escuridão é deveras cansativo. Há de se poupar energia para quando for necessário.
Amanhã quero algo que consolide apenas a Queda da Rede Imunda e Desnecessária. Pois então lembrar: ser inteira... como o mundo. Como o mundo! Pretensão? De modo algum. Por quem o Equador nunca passou no umbigo, que atire a primeira pedra! Ora essa... mas que ilusão a minha. O mundo, já o fragmentaram. O Trópico de Câncer me passa pela goela, como uma linha fatal de pipa. Sem cabeça eu não sou inteira, sem dúvida. Desisti de ser mundo, quero ser um pensamento inteiro. O mundo é menor que o pensamento. E o pensamento... é um fragmento sendo. Todo fragmento se supera ele mesmo. Eu sou fragmentada, e em cada parte é vida a não caber mais. Busco transbordar da melhor forma e pelo melhor onde (pela janela não). Mas até que se consolide o desapego, pedirei: - Não juntais os pedaços, por favor, eu só sei viver em partes. Sou dissipada como as estrelas no universo. Não sou o mundo, sou as estrelas no universo.
"Natalia.
Fragmentos miúdos quase emudecidos.
Fragmentos de ruídos silenciosos que insistem em movimentar-se na inércia.
Fragmentos lapidados pelos percalços do estar no mundo.
Fragmentos zombeteiros que teimam em ser amálgama. Poética no seu existir.
Aprofunda-se nas entranhas da vida, sente seus pesares. Arrasta vísceras. Asco. Denuncia marcas dentre as quais as mais profundas não são vistas a olho nu pois requerem nudez de alma.
Natalia, autora e obra. O sangue que lhe escorre faz-se combustível.
Tragédia?
Arte sublime. Natalia Bonfim, artista da vida. E da morte. Artista do existir.
Natalia.
Herdeira de um Bonfim que a nomeia e a contradiz.
Um Bon fim frag men ta do.
À posteridade deixará inequívoca certeza: a busca por um Bom Começo sempre pode preceder o inevitável
fim."
(Joyce Peu)
"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."
(Ricardo Reis)
A grande interrogação
Ele é de Santa Cruz de la Sierra. E não complementa. Santa Cruz de la Sierra... Penso e penso... Não tenho certeza. Deve estar me testando. "É na Bolívia?" Ele não adivinha pensamento, mas bem que podia ter previsto a interrogação bem grande na minha testa. Pois agora também não quero mais saber de onde você veio! Sim, desde o princípio me testando. Quer saber até onde vou? Quem tem boca vai a Roma! É por isso que eu não chego nem na Bolívia. Fico quieta. E pequena, pequena demais... Temo sair daqui menor do que entrei. É necessário mentir ou omitir para se preservar também no espaço? De repente eu sou do tamanho que te permito. Tenho certeza de que você se previu antes de ser o que é. Todo médico se prevê. E por que não haveria de prever a grande interrogação? Ah, se me descuido...
Se me descuido, fico pequena. Hoje quero ser grande. Cerro o maxilar, mantenho os olhos vivos apesar do corpo fraco. Vamos lá, que comece! Pode perguntar o que for - fico enorme quando me viro em cão bravo. Mas é que devo proteger um território rico e desconhecido... Por exemplo, eu não conhecia esta língua quase firme que agora te responde numa precisão de mapa . Tenho tudo muito claro, as palavras fluem. Do contrário, se a obscuridade viesse à tona, me sufocaria. Eu sou do tamanho do que é claro. Mas também a clareza, com seus pés gigantes, dá uma importância aos fatos maior do que eu supus. Ele é de Santa Cruz de la Sierra e está assustado. Eu me assusto junto. Se eu não estivesse agora regulando milímetro a milímetro a proporção das coisas, o espanto já teria me inundado. Há segundos minha veracidade consistia em desnudar os fatos com frieza sim, mas não estava dentro do previsto revelar-me mais que fria: cruel! Ou estava? Quem sabe, desde o momento em que cerrei os dentes...
Mas é ele quem, no fim das contas, me ameaça: "Se não tiver outro jeito..." A internação, a internação! Sempre tem jeito para quem manipula tanto o tamanho dos balões. "Não está vendo que murchei os meus só pra te deixar com a bola toda?" Calada porém forte, travo uma competição sem propósito.
Santa Cruz de la Sierra... Certo. Todo mundo se prevê. Na próxima consulta, quando eu tiver já te situado, venho do tamanho que eu te supor. E ficamos em pé de igualdade.
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